Inadimplência pesa sobre idosos

Número de consumidores entre 65 e 94 anos com dívidas atrasadas aumenta 8,56% em agosto em relação ao mesmo mês do ano passado.

Alta é quase o dobro da média nacional, de 4,86%

Há três anos, Geraldo José Ângelo, de 69 anos, precisou de R$ 6 mil para arrumar o telhado da casa. Sem o dinheiro na conta, fez um empréstimo no banco e, até hoje, vem tentando pagar o que deve. “Mas acabei fazendo outras dívidas. Nem eram para mim. Me endividei pelos outros”, lamenta. Geraldo faz parte de um batalhão de 4,6 milhões de idosos brasileiros que estão inadimplentes. A vida mais cara no Brasil trouxe um aperto maior para essa parcela da população. O número de consumidores entre 65 e 94 anos com dívidas atrasadas aumentou 8,56% em agosto, em relação ao mesmo mês do ano passado, enquanto a média nacional foi de 4,86%. Nessa faixa etária, o crescimento do número de devedores esteve acima da média em toda a série histórica, desde 2011.

Os dados, divulgados ontem, são do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). O levantamento mostrou que, em relação ao número total de dívidas em atraso, agosto registrou uma variação de 6,28%, na comparação com o mesmo mês de 2014. Já entre os idosos, o crescimento foi bem mais expressivo: 10,6% – a maior variação desde janeiro de 2013. Os dados do SPC Brasil mostram que os idosos com idade entre 65 e 94 representam 8,82% do total de devedores. No início da série histórica, essa faixa etária representava 6,51%. Já do total de dívidas em atraso, eles respondem por 6,85% – no início da série histórica eram 5%.

O setor de água e luz lidera o avanço da inadimplência entre os idosos, com variação de 17,08% no número de dívidas, na comparação com agosto do ano passado. As dívidas com bancos representaram a segunda maior variação, de 14,42%. Para a economista-chefe SPC Brasil, Marcela Kawauti, a grande maioria dos idosos chega à terceira idade dependendo apenas da Previdência Social, em razão da baixa renda e, em muitos casos, da falta de planejamento para a velhice. “Como reflexo disso, a inadimplência entre consumidores idosos avança a taxas acima da média ao longo dos últimos anos”, explica Marcela, destacando também que o número de pessoas acima dos 65 anos vem crescendo no país.

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Para se ter uma ideia, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 15 anos, a quantidade de pessoas na faixa de 65 a 94 anos passou de 5,61% para 7,90% da população brasileira. “Ganho muito pouco, são dois salários mínimos. Por isso, mesmo cansado, estou na Praça Sete, todos os dias, vendendo picolé”, comenta Geraldo Ângelo, que quer quitar o que deve o mais rápido possível. A economista da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL -BH), Ana Paula Bastos, lembra que as despesas dessa parcela da população vêm aumentando, especialmente o valor dos medicamentos, plano de saúde, entre outros. “Assim, eles gastam mais para manter a vida”, diz.

Capital

Se a economia brasileira não melhorar em pouco tempo, o aposentado Celso Augusto, de 60 anos, confessa que poderá se tornar um cidadão inadimplente. Arrimo de família, pagando aluguel e sentindo o peso da inflação no bolso, Celso faz parte de uma faixa etária que traz uma estatística histórica em BH. A inadimplência entre pessoas de 50 a 64 anos cresceu 6,5% em agosto em relação a julho. Os dados, da CDL -BH, os dados chamam atenção, uma vez que, entre esse grupo, havia aumentos, geralmente, de 4%. “Estamos registrando uma realidade diferente. A tendência sempre foi um aumento maior da inadimplência no grupo acima de 65 anos. Na nossa avaliação, essa nova realidade é o desemprego, que atingiu os trabalhadores na faixa até os 64 anos. Muitos são arrimo de família e, por isso, estão sentindo mais o impacto da retração na economia”, comenta a economista Ana Paula Bastos.

A renda real em Belo Horizonte teve uma queda de 7,2% em agosto frente ao mesmo mês do ano passado, conforme destaca a economista. “Esse percentual é mais alto do que a redução nacional, que foi de 3,5%. Por isso, acreditamos que essa queda pode ter contribuído para essa nova curva que se apresenta de inadimplentes em BH”, avalia. Celso Augusto, que tem sentido a vida bem mais cara, diz que paga R$ 1,3 mil de aluguel, e está difícil segurar as contas. “Estou conseguindo equilibrar, mas se o Brasil não melhorar, posso me tornar inadimplente pela primeira vez”, diz. De acordo com Ana Paula, os dados da capital mostram que o tempo da inadimplência vem crescendo e coincide aos anos de boom no consumo. “A maioria das pessoas está com dívidas com os bancos. Nos últimos anos, elas pegaram muitos empréstimos, dividiram contas em muitas parcelas e, agora, diante dessa inflação, não estão conseguindo honrar o que devem”, diz.

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